Dança Contemporânea

Mas, afinal, o que é dança contemporânea? A maioria de nós consegue imaginar um bailarino de sapatilhas de ponta fazendo uma pirueta quando se fala em balé clássico, ou uma dançarina com uma sombrinha na mão realizando passos com a ponta do pé e o calcanhar quando o assunto é o frevo, por exemplo. Mas, quando se trata de dança contemporânea, a referência não aparece assim tão fácil. Pode ser que alguém tenha pensado num espetáculo do Grupo Corpo ou da Quasar Companhia de Dança, duas referências de dança contemporânea no Brasil. Mesmo assim, pode acontecer de você assistir a um espetáculo de cada uma dessas companhias e não ver sequer um passo comum. É que a dança contemporânea não é uma escola ou uma técnica específica, e sim um modo de pensar a dança que passou a ser desenvolvido em todo o mundo a partir da década de 70, depois de a dança moderna dar o pontapé inicial na quebra da hegemonia do balé clássico.

Ficou difícil? Pense na arte contemporânea como um todo. Hoje, é possível que você vá a uma peça de teatro em que os atores não tenham fala, a uma exposição em que os quadros não reproduzam a realidade. A dança contemporânea faz parte das artes contemporâneas, e todas essas artes se dedicam a falar das questões complexas e cheias de nuances de nosso tempo. Família, antigamente, era mãe, pai e filho. Hoje é o pai que casou com a mãe que tem filho de outro. A dança contemporânea se dedica a falar das relações humanas, num mundo onde existe aids, casamentos que não duram a vida inteira, muita miséria e violência, afirma a crítica de dança Helena Katz.

O fato é que o mundo de hoje não é mais o mesmo de antigamente, as coisas mudaram. E a arte acompanhou essas transformações. Por isso, a dança teve que procurar novas abordagens. E de onde poderia partir essa dança que pretende falar das relações humanas senão do próprio homem? A dança contemporânea nos propõe uma investigação de nós mesmos através do corpo, nos convida a vasculhar cada detalhe para descobrir movimentos que expressem nossas emoções, dúvidas e pensamentos. E nos lança a questão: por que não encarar o corpo como uma forma de existir e de fazer trocas com o mundo? Assim, mesmo quem não pretende ser bailarino pode praticar aulas de dança contemporânea como uma forma de autoconhecimento.

Conhece-te a ti mesmo

Se queremos nos expressar por meio do corpo, é preciso antes conhecê-lo. Saber o que existe lá dentro, quais são as direções dos ossos, músculos e articulações, esmiuçar cada detalhe como uma criança que desmonta um brinquedo para ver como funciona. Em geral, mantemos o corpo adormecido. Somos criados dentro de certos padrões e ficamos acomodados naquilo, escreve o bailarino e coreógrafo Klauss Vianna (1928-1992), criador da técnica de consciência corporal no Brasil, no livro A Dança. Esses velhos padrões vão criando as couraças musculares, que nos impedem de explorar as potencialidades do corpo e ainda nos geram aquelas dorzinhas chatas. É o jeito torto de deitar para assistir TV ou o hábito de ficar sentado o dia todo. Assim, acabamos usando alguns músculos demais e outros de menos, criando tensões desnecessárias.

É curioso, no dia seguinte a uma aula de dança contemporânea, sentir uma dorzinha num músculo que você nem sabia que existia, ou se dar conta de que sempre botou o esforço no lugar errado na hora de fazer um movimento simples como levantar a perna. Numa aula, o professor pode propor que você massageie seu pé (ou o do colega) enquanto explica o nome de alguns ossos, suas funções e por aí vai.

Pois a dança surge de nossos processos internos, ou seja, de como nossos músculos se movem, como os ossos se encaixam e como colocamos emoção em nossa massa. Daí a idéia de buscar a dança que existe dentro de cada um. Para isso, é preciso estar atento ao corpo, o tempo inteiro. Para Klauss Vianna, a aula de dança começa pela manhã, quando abrimos os olhos na cama. O aquecimento interno ocorre na rua, no chuveiro, no trânsito. Assim, mudar a posição do sofá ou o local de dormir dentro da própria casa são estímulos que geram conflitos e novas musculaturas em nosso cotidiano: espaços novos, musculatura nova, visão nova. E não é só levar a dança para o dia-a-dia ou vice-versa. Mais que isso: reconhecer que essa divisão não existe, pois o corpo que dança é o mesmo que corre, brinca, come, ama e sofre. Quanto mais levarmos em conta essa dimensão existencial revelada por meio do nosso corpo, quanto mais considerarmos as dúvidas e os questionamentos que nascem na relação com o mundo exterior, mais proveitoso poderá vir a ser o trabalho realizado e tanto mais rico o resultado obtido

Da mesma forma que se preocupa com a anatomia, a dança contemporânea usa as leis físicas, como a gravidade e a força peso de nosso corpo, a favor do movimento. É da natureza o centro da Terra convidar o centro de massa de um outro corpo. É a atração das massas. Antes de se ter um acesso mais claro a esse raciocínio, tendia-se a forçar demais a estrutura muscular

Por isso, muitas coreografias de dança contemporânea, tanto nos palcos quanto nas salas de aula, têm seqüências em que os bailarinos se entregam ao chão ou brincam com quedas, deslizes, variações de níveis de altura: sentar, deitar, estar de pé e cair de uma só vez ao chão. É claro que isso não é regra. Como você já deve ter percebido, regras e padrões passam longe da dança contemporânea. O fato é que suas coreografias tendem a mostrar de forma mais ampla a relação do corpo com o espaço, aproveitando as diversas possibilidades dessa interação. E, para fazer isso com consciência, gerando movimentos harmônicos, expressivos, cheios de intenção e, ainda, sem se machucar, é preciso conhecer nossos apoios, alavancas e, sim, ter força muscular. Mas não a força vinda da repetição mecânica de exercícios, como na musculação, e sim a que surge de movimentos conscientes. O coreógrafo Ivaldo Bertazzo, criador do método de educação do movimento, diz que, se nosso corpo se constitui de vários pedaços, o movimento nos possibilita juntar as peças e criar unidade. .


 

 

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